Você já conheceu os aminoácidos. Agora vamos acompanhar o que acontece quando
eles se conectam, formam uma cadeia e essa cadeia ganha uma estrutura
tridimensional capaz de realizar uma função.
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01
Ligação peptídica: unindo os aminoácidos
Quando os "vagões" começam a formar o trem.
Os aminoácidos se conectam por uma ligação peptídica: uma ligação
covalente entre o grupo carboxila de um aminoácido e o grupo amino do seguinte.
A carboxila perde um –OH, o grupo amino perde um –H, e esses átomos saem juntos
como uma molécula de água. Por isso a reação é chamada de condensação.
Veja a ligação peptídica se formando
aminoácido 1H₂N–CH(R¹)–C(=O)–OH
–
aminoácido 2H–NH–CH(R²)–COOH
dipeptídeoH₂O ↑
Passo 1 de 4
A reação inversa, quebrar a ligação usando água, é a hidrólise: é o que as enzimas do seu estômago e intestino fazem com as proteínas da comida.
N-terminal
Extremidade da cadeia que apresenta o grupo amino livre.
C-terminal
Extremidade da cadeia que apresenta o grupo carboxila livre.
Como lemos uma sequência?
Sempre do N-terminal para o C-terminal, que é também a ordem em que o ribossomo
constrói a cadeia.
Duas unidades formam um dipeptídeo. Cadeias curtas são
oligopeptídeos, cadeias maiores são polipeptídeos.
Não existe uma fronteira oficial entre "peptídeo" e "proteína", mas costuma-se
usar "proteína" quando a cadeia já é grande (mais ou menos a partir de 50
aminoácidos) e tem uma estrutura tridimensional definida.
Pequenos, mas poderosos: várias moléculas importantes do corpo são peptídeos curtos.
Insulina: 51 aminoácidos, controla a entrada de glicose nas células. É aquela mesma sequência FASTA da aula anterior.
Ocitocina: apenas 9 aminoácidos, atua no parto, na amamentação e no vínculo afetivo.
Glutationa: só 3 aminoácidos, protege as células contra danos oxidativos.
Quero ir além: por que a ligação peptídica é relativamente rígida?
A ressonância distribui parcialmente os elétrons pelo grupo peptídico e dá
à ligação C–N caráter parcial de dupla ligação. Isso restringe sua rotação e
torna o grupo peptídico aproximadamente planar. Para este curso, basta guardar
a consequência: a cadeia não funciona como uma corda com rotação totalmente livre.
02
De gene a proteína
De onde vem a ordem dos aminoácidos?
A ordem dos aminoácidos não é sorteada: ela está escrita no DNA. O caminho
DNA → RNA → proteína é tão central na biologia que ganhou um nome,
dogma central. O DNA é transcrito em RNA mensageiro, e o RNA
mensageiro é lido na síntese da proteína.
InformaçãoDNA
TranscriçãoRNA
TraduçãoRibossomo
ProdutoPolipeptídeo
Durante a tradução, o ribossomo lê os códons do mRNA (grupos de
três letras) e os tRNAs entregam os aminoácidos correspondentes. A cadeia cresce
do N-terminal para o C-terminal, à medida que novas ligações peptídicas são formadas.
"Dogma" não quer dizer regra sem exceção. Os retrovírus, como o HIV,
têm uma enzima chamada transcriptase reversa, que faz o caminho contrário: usa RNA
como molde para produzir DNA.
Importante: aqui precisamos apenas da visão geral. Replicação,
transcrição, código genético e detalhes da tradução podem ser explorados no
módulo de Ácidos Nucleicos.
03
Estrutura primária: a sequência importa
A primeira camada da organização de uma proteína.
A estrutura primária é a sequência de aminoácidos da cadeia,
do N-terminal ao C-terminal. Parece pouca informação, mas é ela que determina
todo o resto: quais interações a cadeia vai conseguir fazer, que forma ela vai
assumir e, no fim, o que a proteína faz.
N-terminal → Ala — Gly — Ser — Val — Leu → C-terminal
🩸 Um aminoácido pode mudar uma vida inteira
A hemoglobina, que carrega oxigênio no sangue, tem 574 aminoácidos.
Na anemia falciforme, apenas um deles está
trocado na cadeia beta: na posição 6, o glutamato dá lugar à valina.
normal Val–His–Leu–Thr–Pro–Glu–Glu–Lys…
falciforme Val–His–Leu–Thr–Pro–Val–Glu–Lys…
Lembra da aula passada? O glutamato é carregado negativamente e gosta de água;
a valina é apolar e foge dela. Essa substituição de um único aminoácido cria uma região hidrofóbica na
superfície da proteína. Quando a HbS está desoxigenada, essa alteração favorece
a associação entre moléculas de hemoglobina, que podem formar longos polímeros.
A hemácia, que deveria ser arredondada, assume o formato de foice, entope vasos
e causa crises de dor.
No Brasil, a doença falciforme é uma das doenças genéticas mais comuns, e
justamente por isso ela é rastreada no teste do pezinho.
Ideia-chave: sequência → estrutura → função. Mude a sequência
no lugar errado e a estrutura muda; mude a estrutura e a função vai junto.
04
Estrutura secundária: padrões locais
Quando partes da cadeia começam a se organizar.
Certos trechos do esqueleto polipeptídico assumem padrões regulares que se repetem.
Os dois mais importantes são a α-hélice e a folha β.
Os dois são segurados por ligações de hidrogênio entre o C=O de um
resíduo e o N–H de outro. Repare que essas ligações envolvem o esqueleto da cadeia,
e não as cadeias laterais.
α-hélice
Uma organização helicoidal
A cadeia se enrola como uma escada em espiral, com cerca de 3,6 resíduos por volta,
e as cadeias laterais ficam apontadas para fora. As ligações de hidrogênio são
internas à mesma cadeia: o C=O do resíduo n se liga ao
N–H do resíduo n+4, ou seja, com quem está uma volta adiante.
folha β
Segmentos estendidos lado a lado
Aqui os trechos ficam esticados e se alinham lado a lado, como fitas.
As ligações de hidrogênio são entre fitas diferentes (ou entre
trechos distantes da mesma cadeia). Quando as setas apontam para lados opostos,
a folha é antiparalela; quando apontam para o mesmo lado, é paralela.
Loops e voltas conectam esses elementos e permitem que a cadeia mude
de direção. Não é preciso decorar os tipos de volta agora.
Conexão com a aula anterior: a prolina, com aquele anel que trava a
cadeia, e a glicina, que é flexível demais, quase não aparecem no meio de α-hélices.
Elas costumam ficar justamente nas curvas, e por isso são apelidadas de
"quebradoras de hélice".
Quero ir além: φ, ψ e o gráfico de Ramachandran
A conformação do esqueleto pode ser descrita por ângulos de torção, principalmente
φ (phi) e ψ (psi). Nem todas as combinações são fisicamente possíveis devido a
impedimentos estéricos. O gráfico de Ramachandran é uma forma de visualizar as
regiões conformacionais mais permitidas, e nele as α-hélices e as folhas β aparecem
como ilhas bem definidas. Este conceito é útil em Bioquímica estrutural, mas não é
pré-requisito para seguir o curso.
05
Estrutura terciária e quaternária
Da cadeia à forma tridimensional funcional.
A estrutura terciária é a forma tridimensional completa de uma cadeia,
já com hélices, folhas e voltas dobradas umas sobre as outras. É aqui que as
propriedades dos grupos R que você estudou em aminoácidos têm consequências concretas.
Experimente: a cadeia abaixo está esticada dentro da água. Clique no botão e veja para onde cada tipo de cadeia lateral tende a ir.
meio aquoso
hidrofóbica polar carregada
O que segura essa estrutura?
O motor principal é o efeito hidrofóbico: as cadeias laterais
apolares se escondem no interior para fugir da água. Somam-se a ele ligações de
hidrogênio, interações entre cargas e forças de van der Waals, todas interações
fracas. A única ligação covalente dessa lista é a ponte dissulfeto,
entre duas cisteínas, presente em algumas proteínas.
E a estrutura quaternária?
Surge quando duas ou mais cadeias, chamadas subunidades, se associam para formar
um complexo funcional. O exemplo clássico é a hemoglobina: quatro
subunidades (duas alfa e duas beta) trabalhando juntas. Nem toda proteína tem
estrutura quaternária: a mioglobina, por exemplo, é uma cadeia só.
Motivos e domínios
Um motivo é um padrão estrutural recorrente formado pela
combinação de elementos secundários. Um domínio é uma região
estrutural maior que pode formar uma unidade relativamente independente dentro
de uma proteína, muitas vezes com uma função própria.
Quero ir além: explorando estruturas reais
Estruturas tridimensionais determinadas experimentalmente podem ser consultadas
em bancos como o Protein Data Bank (PDB), de graça. Classificações mais detalhadas
de folds, famílias e superfamílias ficam para uma etapa posterior de Bioinformática
ou Biologia Estrutural.
06
Proteínas fibrosas e globulares
A forma acompanha a função.
🧵
Fibrosas
Alongadas, pouco solúveis em água e com funções estruturais. A queratina
(cabelo e unhas) e o colágeno (pele, tendões, ossos) são os exemplos clássicos.
⚙️
Globulares
Compactas, geralmente solúveis, com funções muito diversas: catálise (enzimas),
transporte (hemoglobina), regulação (insulina) e defesa (anticorpos).
Cuidado com o nome: o colágeno não é feito de α-hélices. Ele forma
uma hélice tripla, com três cadeias enroladas entre si, e é a
abundância de glicina, a cada três posições, que permite esse encaixe tão apertado.
Conexão com saúde: como vimos na aula de aminoácidos, a vitamina C
é necessária para transformar prolinas e lisinas do colágeno em hidroxiprolina e
hidroxilisina. Sem ela, as fibras ficam frágeis: é o escorbuto.
07
Desnaturação: quando a forma é perturbada
Estrutura e função estão conectadas.
A atividade da maioria das proteínas depende da conformação tridimensional.
Quando o ambiente muda muito, as interações fracas que seguram essa conformação
se desfazem e a proteína se desenrola. Esse processo é a desnaturação.
🧶
Proteína em sua conformação funcional
As interações mantêm a estrutura dobrada.
→
〰️
Proteína desnaturada
A cadeia continua inteira, mas desorganizada.
O que causa a desnaturação?
Calor, pH muito ácido ou muito básico, alguns sais e solventes, ureia em alta
concentração e agitação mecânica. Esses fatores podem perturbar as interações
que estabilizam a conformação da proteína, favorecendo sua desnaturação.
Desnaturar é quebrar a proteína?
Não. A desnaturação afeta as estruturas secundária, terciária e quaternária,
mas não rompe as ligações peptídicas: a estrutura primária
continua intacta. Quebrar a cadeia em pedaços é outro processo, a hidrólise.
Dá para voltar atrás? Às vezes, sim. No experimento clássico de
Christian Anfinsen, nos anos 1960, a enzima ribonuclease foi desnaturada e, quando
os agentes desnaturantes foram removidos, ela se enovelou sozinha de novo e voltou a
funcionar. Foi essa experiência que mostrou uma ideia poderosa: a informação de como
se dobrar já está na própria sequência de aminoácidos. Anfinsen recebeu o Nobel de
Química de 1972 por esse trabalho.
Na cozinha: ao fritar um ovo, as proteínas da clara se desenrolam
e se agarram umas às outras. Essa agregação é o que torna o processo irreversível:
não existe ovo "desfrito". O mesmo acontece pelo ácido, sem nenhum calor, quando o
limão "cozinha" o peixe do ceviche ou quando o leite talha.
Quando o enovelamento erra: algumas doenças acontecem porque
proteínas se dobram do jeito errado e se acumulam. É o caso dos príons
(a "doença da vaca louca") e das placas associadas ao Alzheimer e ao Parkinson.
Para reduzir esse risco, a célula tem as chaperonas, proteínas cujo
trabalho é ajudar outras a se enovelarem corretamente.
08
Quiz final
Conecte sequência, estrutura e função.
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Referências
NELSON, D. L.; COX, M. M. Princípios de Bioquímica de Lehninger. 7. ed.